domingo, 21 de junho de 2009

O INÍCIO, COMO TUDO COMEÇOU
Muitos devem ter curiosidade de como virei Renata Andrade. Conto aqui minha história, o início, quando me senti pela primeira vez uma mulher. Sentir-se mulher não é apenas o sexo mas sentir seu corpo mudar, vestir pela primeira vez uma saia, um salto, colocar um batom, escolher que cor de unha ela deva ser pintada... isso é se sentir mulher. Sua mente torna-se feminina, esquece seu passado e inicia um novo rumo. A transformação está feita!
Tudo começou numa brincadeira de aniversário. Meu amigo ia festejar e decidiu por intermédio de Jaqueline (cada um tinha um nome na festa, e Jaqueline é a que está de vestido lilás) a fazer uma festa onde todos iriam montados de mulher. Foi um auê, ninguem saibia andar de salto, nem mesmo passar um blush! Começou os preparativos, todos fomos a uma costureira fazer pela 1ª vez um vestido. Eu escolhi Dourado, sempre gostei de brilhar e aparecer! srsrs.. Alexia a aniversariante escolheu a cor preta. Toda bombada ficou parecendo a mulher do Hulk...mas como era essa a bricadeira ela decidiu mostrar seus músculos usando um tomara que caia. Eu, fanzoca da Angélica, quis uma peruca loira. Como tenho a pele muito clara o loiro me cai bem. Treinamos andar de salto durante um mês inteirinho, nossos vizinhos devem ter odiado o barulho do toc toc que os saltos faziam quando batiam nos parquês paulista (para quem não sabe, é piso de madeira e ecoa). No dia da festa todas nós nos reunimos e iniciamos a nossa "montagem", cada uma tentou fazer o melhor. Me recordo que Alexia grudou unhas postiças com super bonder e depois ninguem conseguia tirar, ela ficou escaldando os dedos em agua quente por uma noite inteira!
Foi a primeira vez que realmente me vesti por inteiro de mulher e amei! Tanto amei que de todas sou a única que virou travesti. Meus outros amigos levaram na bricadeira de festa e depois retomaram suas vidas de antes. Quando entrei no vestido dourado, coloquei a peruca e o salto...nossa me senti outra, era isso que eu queria e nunca tinha tido coragem de assumir. A festa, como sempre, muito engraçada. Imagina você ver seus amigos todos de peruca e salto alto! Nossa como me diverti e até hoje quando nos vemos recordamos os velhos tempos. Quanta nostalgia! Eu levei meu namoradinho da época, Jaqueline com seu gringo italiano e Alexia casada com Nilcéia, a de vestido azul marinho, até hoje estão juntas.
Ao término do anivesário Jaqueline e eu largamos nossos namorados e fomos dar uma volta pela Avenida Atlântica, essa foi uma experiencia que eu jamais esquecerei...imagina, eu de mulher na Atlântica! Queria saber como era ser desejada como mulher...conhecemos algumas travestis que já faziam a vida e elas nos deram a dica de como começar. Daí para frente não quis mais parar, foram só transformações até chegar no que sou hoje: RENATA ANDRADE, conhecida como BONECA DE IPANEMA.




Transgenerismo, Transgeneridade e Posgenerismo


Embora a palavra “transgenerismo” seja usada como rótulo genérico para indivíduos portadores de Transtorno de Identidade de Gênero - transexuais, em particular – esse termo também designa um movimento sócio-político bastante amplo, surgido no final do século XX, na esteira das conquistas dos gays e lésbicas, que busca a defesa dos direitos e interesses de pessoas transgêneras, assim como a afirmação do orgulho transgênero.

O movimento transgênero – ou simplesmente movimento “trans” ou T* - tem sido desde o começo um imenso guarda chuva, incorporando demandas tão diversas quanto de pessoas transexuais, travestis (crossdressers), dragqueens e dragkings, andróginos, transformistas, indíviduos intersexuados e quaisquer outros indivíduos não-conformes ao código binário de gênero masculino/feminino. Em síntese, o movimento acolhe pessoas que por qualquer motivo não se comportam de acordo com as expectativas sociais do gênero em que foram enquadradas ao nascer. Todo esse imenso contingente humano esteve durante muito tempo abrigado dentro do movimento de Gays e Lésbicas, mas aos poucos foi se destacando dele, na medida em que suas demandas específicas e tão diferenciadas começaram a vir à tona.


Durante a primeira década desse século XXI, o transgenerismo ganhou estrutura e fôlego, sobretudo em países do hemisfério norte, onde inúmeras organizações públicas e privadas trouxeram voz e força aos movimentos para a afirmação da pessoa transgênera na sociedade.


Foi também nesta década que se começou a falar, ainda que muito difusamente, de “transgeneridade” como uma terceira opção de gênero, além das duas alternativas oficiais existentes (masculino e feminino).


No Brasil, o movimento transgenerista ainda é bastante incipiente, se que é pode ser reconhecido como um movimento estruturado. Há, sim, muita articulação entre os órgãos de defesa dos interesses de transexuais e travestis, mas nenhuma organização se apresentou até agora como porta-voz do movimento transgênero em nosso país.


Simultaneamente ao avanço do movimento transgenerista em países do primeiro mundo, o final do século XX assistiu o surgimento de um “Movimento Posgenerista”, cuja proposta vai muito além da defesa dos interesses desses “outros gêneros” historicamente excluídos do modelo binário oficial masculino/feminino.


Na verdade, o Pós-Generismo advoga em essência a extinção total dos gêneros. Um dos principais argumentos dos que antevêem o fim dos gêneros é o crescimento vertiginoso das técnicas de biotecnologia avançada que têm levado a reprodução humana assistida para campos até agora imagináveis apenas em filmes de ficção científica. Mas o principal argumento dos posgeneristas é que a existência de apenas dois gêneros, estabelecidos a partir do sexo biológico das pessoas tem funcionado como mecanismo de repressão dos indivíduos e forte impeditivo do desenvolvimento de uma sociedade humana mais justa e igualitária.


Embora o femininismo radical defenda a pura e simples extinção do gênero masculino, alguns defensores mais moderados do posgenerismo predizem que o ser humano do futuro deverá ser basicamente um indivíduo andrógino, reunindo em si o que há de melhor nos “códigos sócio-culturais” da masculinidade e da feminilidade. Antes de serem “machos” ou “fêmeas”, “homens” ou “mulheres” ou “transexuais” ou “travestis” ou quaisquer outras categorias, os seres humanos de um futuro não muito distante serão apenas “pessoas humanas”, liberadas para exibir o melhor da espécie humana, por não estarem mais submetidas aos rígidos esquemas de comportamento e expectativas de desempenho social ligados a gênero.


Por outro lado, como o espaço de interação humana tende a ser cada vez mais virtual nessa era digital, os defensores do pós-generismo advogam que as rígidas estruturas de gênero, sexo e sexualidade nas quais temos vivido até hoje, tendem a diluir-se e ao mesmo tempo diferenciar-se ao infinito, de modo que se tornará praticamente impossível classificar qualquer ser humano em função desses critérios, como ainda se faz atualmente no mundo real. Porém, no mundo virtual, essa indistinção de sexo e gênero já é fato consumado. Ao navegar na Internet, por exemplo, é impossível saber se um eventual interlocutor é homem ou mulher, mesmo que ele se apresente de uma ou de outra forma.


A tecnologia, por seu turno, permitirá que as transformações corporais nos indivíduos tornem-se procedimentos tão corriqueiros que joguem por terra a terrível burocracia hoje existente em torno de tais transformações.


Para quem nasceu, cresceu e está vivendo em um “mundo generado” é simplesmente impossível, para não dizer “terivelmente ameaçador” pensar em um mundo assim, completamente sem gênero (ou, se preferirem, com tantos gêneros quantas pessoas existirem). Mas, embora pareçam possibilidades bastante remotas, as tecnologias necessárias para que isso tudo aconteça não só existem como continuam sofrendo avanços exponenciais.


Enquanto os cavalos continuam aparentemente no mesmo trote, o posgenerismo é mais do que oportuno como reflexão do gênero como instituição social “em fim de carreira”. É preciso por em cheque cada vez mais o que as pessoas “deveriam” ou “não deveriam” fazer em função do seu sexo biológico, a partir do seu enquadramento em um dos dois gêneros existentes. Apesar de ser o principal mecanismo repressor e embotador das melhores qualidades humanas, é sobre essa dualidade, totalmente supérflua no mundo atual, que continua estruturada toda a vida social do planeta.


Ao advogar o fim do gênero como critério de enquadramento dos seres humanos – o movimento posgenerista dá um novo enfoque a um dos pilares do próprio movimento transgenerista – que é a contestação da existência de apenas dois gêneros para enquadrar as infinitas possibilidades de expressão dos seres humanos.




















DOMINGO : dia de PEDALAR

Hoje vou dar uma voltinha pela orla na minha mais nova aquisição: A bicicleta para travestis passivas. Vejam como ela é lindaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

SP cria posto de saúde exclusivo para travestis e transexuais

Cristina Cristiano, Diário de S.Paulo
SÃO PAULO - Na Semana do Orgulho Gay, a cidade de São Paulo ganha, a partir desta terça-feira, o primeiro ambulatório de saúde do país exclusivo para atendimento de travestis e transexuais. Ele funcionará junto ao Núcleo de Doenças Sexualmente Transmissíveis do Centro de Referência e Treinamento (CRT/ Aids), na Vila Mariana, Zona Sul da capital.
- A iniciativa da Secretaria Estadual da Saúde vem atender a uma antiga reivindicação da população transexual, que estava sem tratamento adequado por causa de discriminações - afirma Alessandra Pereira, diretora da Secretaria de Travestis e Transexuais da 13 Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Segundo ela, um dos grandes constrangimentos desta população é a questão do nome.
- Como a maioria ainda tem nome masculino na identidade, acaba sendo discriminada porque está com roupas femininas. Além disso, muitos médicos não aceitam a opção da paciente e agem com descaso, principalmente em relação ao silicone industrial.
Alessandra diz que a população gay vê no ambulatório um acolhimento. "A ideia não é criar novos espaços, mas fazer com que outros ambulatórios prestem o mesmo serviço", disse.

Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. Será que por gostar de travesti eu sou gay?

DÚVIDA:
Olá, tudo bem? Eu me chamo Guilherme tenho 32 anos e sou casado, mas tenho muita atração por travestis. Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. O que será que devo fazer pois, no momento, estou gostando mais de travesti do que de mulher, e isso eu não consigo mais controlar. Será que por gostar de travesti eu sou gay?
LETICIA LANZ RESPONDE:
Caro Guilherme,
Gostar não depõe contra ninguém. Odiar, sim, é fato muito feio e vergonhoso. Ter prazer não é vergonha pra ninguém. Desconforto e desprazer são, sim, coisas muito feias e vergonhosas. Todo mundo devia fazer tudo para ser feliz pois, pessoas infelizes, acabam contribuindo para que outras pessoas sejam infelizes também.
Senti você confuso não apenas quanto ao seu sentimento, mas também – e sobretudo - quanto à sua sexualidade. “Será que eu sou gay?” é algo que parece lhe incomodar muito mais do que a idéia de “correr atrás do seu desejo, fazendo aquilo que lhe dá prazer”. Essa preocupação “mais do que exagerada” pela orientação sexual é muito comum entre homens, cuja educação estimula tanto um “embotamento” dos sentimentos quanto um medo tremendo de “manchar a própria masculinidade” praticando alguma forma de “sexualidade errada”.
Acontece que não existe nenhuma sexualidade certa e nenhuma sexualidade errada. Apenas “convencionou-se” que homens devem fazer sexo com mulheres, assim como mulheres devem fazer sexo com homens. Essa é uma idéia baseada na crença (basicamente religiosa) de que o sexo é algo sujo e pecaminoso, devendo destinar-se exclusivamente à reprodução.
Você, felizmente, está descobrindo que o sexo é uma infinita fonte de prazer existencial. E que, felizmente, vai muito além do simples propósito de reprodução.
As mulheres evoluíram muuuuuuuuuuuuuuuuito nesse sentido. Inclusive, já são capazes de se reproduzirem por si mesmas, sem nenhuma ajuda presencial de um homem. Basta que decidam por ter um filho e se dirijam a um Banco de Sêmen...
Os homens, ao contrário, permanecem na “idade da pedra”, em termos de sexo, sexualidade e prazer.Sua maior preocupação não é a de “ter prazer” mas a de “manter a imagem da masculinidade”. Morrem de medo de “não serem” ou “deixarem de ser homens”, por terem feito isso ou aquilo que, dentro do vetusto e ultrapassado “código da masculinidade” possa vir a depor contra eles.
Já notou que as mulheres nunca “se pelam” nessa dúvida cruel de se são ou não mulheres por fazerem isso ou aquilo? Elas não estão nem aí. Brincam entre elas, andam de mãos dadas na rua, se beijam, se abraçam, dormem juntas, vestem-se com roupas masculinas, etc, etc, sem jamais “entrar em parafuso” com essa pergunta absolutamente ridícula: será que eu sou gay?
E se você for gay, hein? Que diferença faz? Em que é que o fato de você ser ou não gay vai contribuir para que você seja uma pessoa melhor ou pior nesse mundo? Quem lhe disse que o “certo” é ser “hetero” e o “errado” é ser gay, como você deixa transparecer na sua pergunta tão “perturbadora” quando “desproposital” e nonsense: - será que eu sou gay por gostar de travesti?
Notou que lhe importa muito menos o fato de “gostar” – que deveria ser o seu principal objeto de atenção – do que o fato de “ser gay”, que não tem a menor importância no contexto da sua felicidade e satisfação pessoal nesse mundo?
Será que você está querendo dizer que é preferível sofrer, padecer, reprimir-se e repudiar o seu desejo por travesti do que “correr o risco” de ser reconhecido como “gay” pelos outros? Você não acha muita tolice desprezar o seu “desejo real” em nome da manter uma “fachada” daquilo que a sociedade chama de masculinidade?
Antes de mais nada, diga-me o que é ser homem? E diga-me, também, o que distingue um homem de uma mulher ou de uma travesti? A propósito, o que é masculinidade? O que é feminilidade? Tente responder a essas questões e a sua cabeça vai dar um nó sem tamanho pois, apesar de serem coisas que a gente defende de unhas e dentes no dia a dia, ninguém sabe dizer exatamente o que é, exceto “moralistas”, “pregadores fundamentalistas” e outros embusteiros que baseiam suas conclusões dos seus próprios preconceitos e/ou se baseiam em idéias de cinco mil anos atrás ou mais.
Se a “sociedade” diz que a união deve acontecer entre um homem e uma mulher - e não entre um homem e uma travesti – caberá a você decidir como é que você deseja posicionar-se em relação a isso. Uma coisa é o que a sociedade diz; outra coisa é o que lhe diz o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça. Para onde pende o seu “querer” mais íntimo e verdadeiro? O que vale são as suas respostas, não as respostas prontas que a sociedade tem para lhe oferecer.
Você gosta de fazer sexo com travesti? Faça. É isso que deixa você feliz? Pois então, o que está esperando? Ponha de lado essas perguntas tipo “isso é/não é coisa de macho?”, “isso é/não é coisa de gay?”, cujas respostas não terão jamais nenhuma importância concreta na definição da sua felicidade. E daí se for “coisa de gay”? E daí, se você for gay? Será que você será menos “você”, sendo gay, isto é, tendo orientação homossexual? Será que é bom pra você continuar vendendo por aí uma imagem de “macho hetero”, e vivendo uma vida miserável, totalmente infeliz por não estar sendo a pessoa que é e por não estar fazendo aquilo que o seu coração, seu corpo e a sua cabeça desejam?
Amar travestis não é crime e ser gay também não é. E o que importa mesmo é a relação entre duas pessoas humanas, independente de que rótulos elas tenham recebido por parte da sociedade.
A única consideração que eu teria para lhe fazer não tem nada a ver com você gostar de travesti e ser ou não ser gay. Como eu já lhe disse, essas coisas não fazem e não farão a menor diferença na sua história de vida.
O que realmente me chamou a atenção é de você estar casado com uma pessoa, no caso uma mulher, e estar tendo relacionamentos fora do casamento, motivado por insatisfação da vida a dois. Se fosse o contrário, ou seja, se fosse a sua esposa que estivesse se relacionando sexual e/ou afetivamente com outras pessoas você ficaria satisfeito com isso?
Em vez de você se perguntar uma tolice dessas – se é ou não gay por gostar de travestis – deveria se perguntar se é bom pra você permanecer dentro de uma relação sem querer realmente ficar nela. E pior: se é justo “trair” uma relação firmada com outra pessoa e que está lhe servindo apenas de “fachada pública” pois, como você disse, gostaria de terminar seu casamento e ir morar com uma travesti. Fora os eventuais problemas de promiscuidade da sua parte, que podem afetar a sua companheira, não é legal de maneira nenhuma trair os sentimentos ou os desejos de outra pessoa, seja ela uma mulher, um homem ou uma travesti, tal como você está fazendo, permanecendo dentro de um casamento onde você não se sente nem feliz, nem realizado nem satisfeito.
Ser ou não ser gay por gostar de travesti, repito, não tem nada a ver. São só preocupações machistas totalmente bobas e sem sentido. Pare com isso, ouça o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça e vá atrás do seu desejo, da sua felicidade.
Agora, se não está bom ficar casado – seja com uma mulher, com um homem ou com uma travesti, pouco importa - se não é isso que você quer, caia fora da relação. Não fique ao lado de alguém só por conveniência, para manter uma “máscara” social aceitável. Isso faz muito mal, tanto pra você quanto pra outra pessoa.
Espero que você reflita sobre tudo isso e vá atrás do seu desejo. Você é a única pessoa que pode fazer por você.
Beijos,
Letícia Lanz

Por que homens procuram travestis?




Muitos parecem precisar de uma forma atenuada de sexo com outro homem. A ambiguidade dessa relação sugere muitas outras fantasias.

Mendes tem 37 anos, cabeça raspada e brinco na orelha direita. Pelos modos e pela aparência, o rapaz branco de família evangélica não se distingue de outros milhões de jovens paulistanos, exceto por uma particularidade importante: ele namora um travesti, Flávia. Os dois se conheceram há cinco anos no centro de São Paulo e, de lá para cá, constituem um casal. Na semana passada, sentado ao lado de Flávia na sala de um apartamento na Rua General Osório, Mendes explicava, em voz pausada, as bases da relação. “Nosso relacionamento é hétero”, afirma. Isso quer dizer que, no sexo, ele é a parte viril do casal, enquanto Flávia cumpre o papel de mulher. “Mas entre nós não existe só sexo. A gente tem amor e cuida um do outro.” Com cabelos negros e corpo esguio, Flávia ganha a vida se prostituindo nas ruas. Ele trabalha nas ruas como vendedor.As palavras de Mendes revelam, sem explicar, um dos grandes mistérios da sexualidade moderna: a sedução exercida pelos travestis. Desde meados dos anos 70, quando despontaram nas esquinas das metrópoles brasileiras com saias minúsculas e seios exuberantes, essas criaturas híbridas conquistaram um espaço enorme no imaginário sexual do país. Todos os dias, milhares de homens se esgueiram por avenidas sombrias para comprar o prazer oferecido por seus corpos alterados. O risco envolvido nesse tipo de operação ficou claro há duas semanas, quando Ronaldo Nazário, o jogador de futebol mais famoso do mundo, transformou-se no protagonista de um escândalo que tinha como coadjuvantes três travestis do Rio de Janeiro. Ele foi com o grupo ao hotel Papillon e, durante a madrugada, desentendeu-se com um deles, Andréia Albertini. Acabaram todos na delegacia, de onde a história ganhou o mundo. A avalanche moral que desabou sobre Ronaldo a partir daí foi incapaz de responder à questão mais simples colocada pelo episódio: por que homens adultos e mesmo famosos arriscam segurança e reputação e vão atrás de travestis?

O antropólogo americano Don Kulick passou um ano vivendo com travestis em Salvador, sabe muito de seu cotidiano e mesmo de suas preferências íntimas. Mas não se arrisca a explicar quem são seus clientes. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, diz. O livro de Kulick, professor da Universidade Nova York, sairá em português no fim deste mês, pela editora Fiocruz, com o título Travestis: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil. Kulick conseguiu uma descrição razoavelmente rigorosa do que os fregueses exigem dos travestis. Durante um mês, pediu a cinco deles que registrassem o tipo de serviço prestado nas ruas. O resultado de 138 programas: em 52% dos casos os clientes queriam sodomizar, em 19% exigiam sexo oral, 18% queriam fazer aquilo que se costuma chamar de “troca-troca”, 9% pagaram para ser sodomizados e 2% para ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis”, escreve s Kulick. “Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.”‘‘Não é irrelevante que 27% dos homens da amostragem quisessem ser penetrados pelos travestis’’DON KULICK, antropólogo americanoA confiar apenas no que dizem os travestis, o porcentual de seus clientes que se portam como homossexual passivo é alto. “Nove em cada dez homens querem ser penetrados”, diz Flávia, a namorada de Mendes. “Se o travesti não for bem-dotado e ativo, não ganha a vida na rua.” Exagero? Talvez. Assim como as prostitutas, os travestis têm uma relação antagônica com aqueles que pagam para usar seu corpo. Muitos não suportam exercer o papel viril que se exige deles na prostituição e o fazem com grande sofrimento, porque não encontram outra forma de ganhar a vida. Vingam-se dessa situação degradante com a mesma arma que a sociedade usa para humilhá-los: questionam a hombridade do freguês e o ridicularizam.O psiquiatra Sérgio Almeida trabalha com travestis em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e sua experiência corrobora em alguma medida a versão de Flávia. Cabe a Almeida a tarefa difícil de distinguir entre os travestis – definidos como homens que gostam de agir e sentir como mulher – e os transexuais, que se sentem mulheres aprisionadas em corpo masculino. Para estes, recomenda-se a cirurgia de troca de sexo. Para os travestis, ela equivale a uma mutilação e pode levar ao suicídio. Almeida gasta dois anos com cada paciente até decidir em que categoria ele se encaixa. “Desde 1997, fizemos 95 cirurgias e não tivemos nenhum problema”, afirma. O pós-operatório mostrou ao psiquiatra que ex-travestis são freqüentemente abandonados por seus parceiros quando perdem a anatomia masculina. E que os operados que insistem em continuar na prostituição perdem também a carteira de clientes. Algo de crucial desapareceu na cirurgia. “Não é verdade que os homens procuram travestis porque estes se parecem mulheres”, diz ele. “Eles querem o algo mais que as mulheres não têm.”Os próprios envolvidos têm opiniões diferentes. Um leitor anônimo de epoca.com.br enviou depoimento no qual afirma, basicamente, que os travestis são a melhor opção sexoeconômica. Diz ele: “Já saí com vários travestis. O que me atraiu foi justamente o desejo físico pelos bumbuns e seios avantajados. Ficar com uma travesti para mim é conseguir a baixo preço uma mulher de porte e formas que eu jamais conseguiria pagar ou namorar”. Márcia, travesti paulista cuja foto abre esta reportagem, repele qualquer tentativa de analisar os homens com quem sai voluntariamente. “Para mim, homens que saem com travestis são heterossexuais de cabeça aberta, que topam qualquer coisa”, afirma. Advogado, casado, pai de uma moça, diz que tem impulsos de vestir-se e agir como mulher desde criança, mas que isso nunca o impediu de ter relações normais com mulheres: “Quando saio com um homem, ele não importa. O que me interessa é reforçar minha identidade de mulher”.
O mistério em torno dos homens que procuram travestis é proporcional à ignorância que cerca os próprios travestis. Como grupo populacional, eles são escarçamente estudados: não se tem a menor idéia de quantos sejam, no mundo ou no Brasil. Os líderes das organizações de travestis estimam que haja 5 mil ou 6 mil deles no Rio de Janeiro e uma quantidade muito maior – fala-se em 30 mil – em São Paulo. Nenhuma ciência ampara essas estimativas. Sabe-se que há travestis de Porto Alegre a Manaus, inclusive em cidades pequenas. Tem-se a impressão, entre os que lidam com o assunto, que o Brasil é o líder mundial nessa categoria – e o principal exportador para os países europeus, sobretudo Itália e Espanha. “O Brasil tem a maior população mundial de travestis e o maior número de travestis per capita”, afirma Kulick. Trata-se de uma opinião bem informada, mas é apenas opinião. Líderes de organizações de travestis como Keila Simpson, presidente da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, querem que o censo inclua perguntas que permitam quantificar os diferentes grupos sexuais do país. “Como se pode dirigir políticas públicas a uma população de tamanho ignorado?”, diz.A palavra-chave quando se trata de explicar a atração exercida pelos travestis parece ser ambigüidade. Eles são percebidos simultaneamente como homem e mulher, uma incongruência que mexe com as profundezas da psique humana. “O travesti mobiliza o desejo como mobiliza a repulsa”, afirma a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Outra psicanalista, Maria Rita Kehl, vê duas razões no fascínio pelos travestis. A primeira é que, por ser uma mulher com pênis, ele captura os restos das fantasias sexuais infantis. A outra está no fato de os travestis encarnarem a feminilidade de uma forma absoluta, que nenhuma mulher contemporânea aceitaria. “Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz Maria Rita. “Se alguém sabe o que é ‘ser mulher de verdade’ (uma ficção masculina), é justamente o travesti.” Os próprios travestis são taxativos ao afirmar que seus fregueses procuram neles a diferença: a mulher com falo, a fantasia, o risco. “Transgressão é essencial. O proibido atrai”, afirma Marjorie, travesti com 20 anos de experiência nas ruas, que hoje trabalha na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As coisas que se dizem sobre os homens que saem com travestis são lendas machistas.”Paira sobre essa discussão uma palavra que os psicanalistas detestam: patologia. Sim, as pessoas têm o direito inalienável de manter relações sexuais com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo. Posto isso, cabe a pergunta: está bem de cabeça um homem casado (como parece ser a maior parte dos clientes dos travestis) que abre a porta de seu carro na porta do Jockey Club, em São Paulo, e paga R$ 40 por uma hora de sexo com um homem que parece ser mulher? Os especialistas não têm uma resposta unânime a isso.“Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz uma psicanalistaLiberais dizem que, bolas, desejo é desejo, e não se pode explicar ou reprimir. Há que aceitar. “Entendo que os homens que só se realizam sexualmente com travestis possam estar mal resolvidos em sua orientação sexual”, diz Maria Rita Kehl. “Mas considerar que todos os que gostam de travestis são homossexuais acovardados é uma redução preconceituosa.” Na outra ponta, fala-se em sofrimento e confusão por trás dessa forma específica de prazer. “Para alguns homens é patológico”, afirma o psicanalista Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexualidade. “Muitos fazem isso num impulso de autodestruição.”Há os incapazes de lidar com seu próprio desejo por outros homens. Há os que buscam cumprir seu “papel social” no corpo feminilizado dos travestis. Há de tudo, e nem tudo é a festa do desejo que a modernidade implicitamente recomenda. Onde está o limite? Na dor. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, com mais de 30 anos de experiência terapêutica, muitos homens que saem com travestis o procuram em estado de sofrimento. Eis o que diz a respeito a psiquiatra Carmita Helena Abdo, que coordena o Projeto de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Se as pessoas fazem sexo responsável, não estão sofrendo e não me procuram, não quero normatizar a vida de ninguém”.