segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Na vitrine do preconceito

Expostas em ruas abertas, divulgando suas intimidades emjornais, revistas e páginas da Internet ou até mesmo andando serenamente numatarde qualquer nas avenidas de suas cidades para dar uma volta ou ir aosupermercado, elas falam além do comum. Trazendo no corpo, a marca de suatransformação. Na maquiagem, muitas vezes pesada, elas não querem agredir.Querem encobrir as imperfeições que a natureza trouxe de desencontro ao modo devida que têm. Elas são diversas, seja na maneira de andar, falar, agir e secomportar. Os graus de instrução variam, embora as chances dadas pela sociedade,na maioria das vezes, sejam muito pequenas ou quase nulas. Acabam tendo comoúnica alternativa, quase sempre predestinada, a prostituição. Elas são astravestis e transexuais. E é sobre elas que falarei um pouco mais neste momento.
Não precisam de camisetas e nem bandeiras do arco-íris. Nospeitos e no corpo siliconizado ou hormonizado, elas trazem sua luta e tambémsofrem as conseqüências desta ousadia em serem do jeito que querem. Querem não,este desejo em trajar-se e viver uma vida diferente do esperado, vai além demero querer. É algo que não pode ser mudado, que está intrínseco à naturezadestas pessoas e que constitui pilar essencial da constituição, quer seja datravesti, quer seja da transexual.
Andar na rua e ser exposta mais do que se deseja. Não consegueser anônima, nem quando quer. As pessoas nos olham e já imaginam nossohistórico: drogada, traficante, prostituta, doente(mental ou aidética) e aindaquerendo “ser mulher”. Não fuja destes conceitos. Eles são inerentes ao seujeito de ser. Onde aprenderam isto tudo, você pode questionar, e eu te digo:“Aprenderam com seus pais, em conversas informais com amigos e amigas, emcolégios sejam públicos ou particulares, e na mídia em geral”. Todo mundo sabedisto, é verdade que não deve ser contestada. Travestis e transexuais são assim– gente que não presta, coisa ruim e do Capeta. Se viverem, merecem apanhar. Seapanharem, merecem morrer. E assim a coisa vai, de geração para geração.
É sempre regra que quem se expõe mais, está mais visível.Isto é claro, para todos nós. Inclusive, deve ser, para você que me lê. Aspessoas têm medo de que quando a pessoa torna público seu jeito de ser, estejeito vai contaminar as pessoas que estão à sua volta. Tudo fica ainda piorquando esta ousadia em tornar público seu modo de ser vai contra regras morais econtra o “normal” ensinado como moralmente correto.
Tudo o que acontece em quatro paredes é permitido, até o queachamos errado. O certo e o errado variam conforme nosso estado de espíritomomentâneo. Os desejos privados, enquanto privados fiquem, são como se nãoexistissem. Agora, quando tornamos públicos estes mesmos desejos, a situaçãomuda drasticamente. Feriu a regra, será punido. Não obedeceu a cartilha, seráeliminado.
Travestis e transexuais ousam tornar públicos desejos,sentimentos e condutas próprias de suas vontades. Contrariam, não de casopensado, a ordem estipulada e ferem moralistas hipócritas e pseudo-religiososque pensam saber da verdade divina. Mal sabem os mesmos e aqui conto um segredo,que Deus é amor- e não o ódio que propagam em seus cultos e centros deconvivência. Gays afeminad@s também ousam isto tudo, e serão condenados aocaldeirão do Diabo? Deus ousou em seu tempo falando de amor ao próximo, união esolidariedade. Deus ousou não para mostrar poder, mas sim para ir de encontro aoque acreditava ser a Verdade.
Está na hora de pararmos de analisar se travestis estão certasou erradas, se gays devem agir de um modo masculino ou feminino e se transexuaissão loucas ou neuróticas. Está na hora de refletirmos porque julgamos tanto? Quemedo é este que nos afasta de vivermos a diversidade que somos? Que lugar é esteque vivemos para crucificar, ao invés de enaltecer as qualidades e riquezas quetod@s, em maior ou menor escala, possuem?
Quando perdermos o medo do nosso próximo, seja ele quem for,notaremos em primeiro lugar, que perdemos muito tempo fechad@s em nossa própriaignorância.

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