
Natal... essa festa que todo ano mobiliza metade do planeta e imobiliza milhões de contas bancárias - mais devedoras do que país de terceiro mundo - devido aos gastos excessivos, coisa desconhecida especialmente no Planalto Central brasileiro...
Natal... Festa de um gordo velhinho que ajuda a ordenhar os magros salários de uma legião de famintos consumidores e que - diferentemente de Robin Hood - não dá nada aos milhões de consumidores famintos. Os primeiros, gente que compra compulsivamente e os segundos, gente que jejua compulsoriamente.
Natal... Essa festa em que as famílias se reúnem alegremente para "tricotar" sobre a vida daqueles que - por uma razão ou outra - não compareceram à festa, tudo isso entre garfadas e goladas que minam a mesa, a geladeira, o freezer e até a caixa de isopor escondida embaixo da churrasqueira, um prejuízo que geralmente recai sobre um ou dois chefes da família.
Quando a ressaca e a má disgestão começam a dar uma trégua, chega o ano novo. Os vícios natalinos se repetem, mas com uma diferença: esperança. As pessoas ficam mais estimuladas a esperar dias melhores (será que virão?). Como sobreviver sem um pouco dessa utopia? Esperança parece ser um mal necessário... até indispensável no país do absurdo.
"Feliz ano novo!!!" - a gente ouve isso o tempo todo, mas não quer ver quanta gente está simplesmente desesperada. Gente religiosa que se agarra à barra do vestido de Yemanjá, que tenta se garantir atracado à cruz do Nazareno, que recorre à alguma simpatia de última hora, e por aí vai. Outros pensam em pôr fim à própria vida em algum apartamento classe média ou alta de frente para o mar. Lembro-me de ter caminhado bastante pela orla no ano passado. Via um constante replay de cenas que nunca mudam. Impossível ajudar a quem quer que seja. Todos estão em busca. E cada um tem que fazer seu caminho. Não há caminho previamente estabelecido. Dizer que há muitos caminhos é tolice. O caminho se faz enquanto ando numa ou outra direção. Ele não está dado a priori. Se outros tomaram direções aparentemente iguais fizeram caminhos diferentes. Cada um é um. Neste sentido, todos podemos dizer: "Eu sou o caminho". Meu caminho é único, porque eu sou único. O mesmo se dá com cada ser humano que comigo divide o espaço terrestre. Construindo o meu próprio caminho (ou a mim mesmo?), e pensando em como tudo é permanentemente mutante, instável, volúvel, chego à conclusão de que esse é o aspecto da vida que angustia o homem. Ele se vê constantemente confrontado com a necessidade inescapável de fazer escolhas. E cada escolha traz sua própria carga de prováveis conseqüências - nunca perfeitamente previsíveis, calculáveis, controláveis. Pelo contrário, geralmente fora do domínio de nossa vontade.
Para aliviar a angústia, as pessoas desenvolvem estratégias. Algumas das quais só trazem mais angústia: Religião, drogas, consumo excessivo de comida, álcool e afins. Fica sempre a pergunta fundamental dos gregos: Como experimentar o bem viver, ou atingir a felicidade, construir uma existência plena? No fundo, isso é tudo o que todo mundo quer. Alguns, sem esperança de atingir isso em vida, projetam esse anseio para "outros mundos" esperando conquistar esse bem num outro plano. Desespero, angústia e medo acabam sendo as forças motrizes por trás desse pensamento ou crença.
Todavia, fugir não resolve. Autodestruir-se também não. Viver intensamente, valorizando aquilo que estimule o fortalecimento da vida parece ser a melhor via. Mas cada um terá que descobrir como fazer isso a sua própria maneira. Em meio a tantos jantares e ceias, não importa se você vai cair de boca no peru ou traçar aquela gostosa rabanada. O que interessa é curtir tudo intensamente e sem perder o auto-domínio. Afinal viver intensamente é muito melhor quando, além disso, a gente vive











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