DÚVIDA:
A discussão põe em pauta algumas dificuldades na classificação que inclusive ecoam em casos como o meu, que sou jornalista. Nunca adotei, por exemplo, o "TTT", pq acho muito complicado ficar estendendo a sigla, e até LGBT já me parece muito. Mas, enfim, o "TTT", pelo que sei é travestis, transexuais e transgêneros. Mas o que são cada uma dessas categorias? Penso que está sendo necessário dar um pouco mais de consistência conceitual a cada um dos termos nesse momento.
Há alguns anos, lembro vividamente que o "T" = transgêneros, que era uma palavra que englobava travestis e transexuais em conjunto e que o que diferenciava os dois grupos era, geralmente, o desejo de fazer a cirurgia e "migrar" integralmente para o outro sexo.
Depois, a palavra "transgêneros" passou a ser desacreditada, pois muitas trans e travestis não gostavam dela, além de ter um problema de acuidade em seu uso. Passou a ser "TT" = travestis e transexuais, mantendo o diferencial do desejo de cirurgia.
Então, fiquei sabendo que esse diferencial não era tão diferencial assim. Que existem trans, notadamente trans FTM (female to male), que muitas vezes estavam de fora da discussão até então, que não desejam a cirurgia de redesignação sexual, seja por motivos estéticos ou funcionais. Então, a coisa passou integralmente a ser a questão de identidade de gênero, ou seja, a travesti não quer operar, e a trans também não precisa querer operar. O que determina é se uma se sente mulher e a outra, não. Percebam que isso já deixou a coisa mais complicada para se definir.
Posteriormente, se descobriu, com razão, que não existe essa diferenciação travesti-transexual tão forte no exterior. Lá, costuma-se usar "pessoa trans", ou "trans", para se referir a qualquer pessoa que migre entre os gêneros. Percebi que era verdade, pois mesmo dentro do segmento em que trabalho, a pornografia, tudo pertence ao gênero "trans" ou "transexual". Mas aí fiquei na dúvida: não devo mais usar "travesti"? Agora, uso "pessoa trans"? E as trans de antes, continuam tendo o mesmo conceitual que agora?
Então, como se não bastasse confusão suficiente, o desacreditado "transgêneros" voltou à baila! Fui informado que ele agora engloba quem não é travesti, nem transexual, ou pessoa trans (whatever). Agora, ele engloba drags, crossdressers, etc., o que já me causou estranheza, pois até o momento não consegui notar a relação entre parte desses grupos e o conceito de identidade de gênero, que então tinha sido minha salvação. E descobri, de repente, que, talvez por já ter usado roupas do sexo oposto e me permitir ser tratado dessa forma (sim, experiência pessoal), de repente, posso ser um transgênero? Mas sempre me vi como homem gay. Deu "tilt".
E tudo isso esbarra numa questão de falta de literatura própria balizada e algumas dúvidas pertinentes que permanecem sem resposta convincente. Afinal, uma trans MTF que faz a cirurgia de redesignação e muda os documentos (caso da Roberta Close), deixa de ser trans e passa a ser mulher efetiva? O conceito de trans é necessariamente atrelado ao "in process", ou permanece como classificação tendo em vista o histórico da pessoa?
Já perceberam quanta confusão? E isso não está partindo de um jornalista da grande mídia que só entra em contato com a questão LGBT, ou LGBTTT esporadicamente. Acompanho o movimento, as discussões, cubro os eventos. Imagine, então, tentar explicar o "encaixe" a quem é de fora. Então, fica aqui a pergunta:
- O que é exatamente travesti?
- O que é exatamente transexual?
- O que é exatamente pessoa trans?
- O que é exatamente transgênero?
Acredito que essas questões têm de ser trabalhadas no início, pois atualmente, nem dá pra saber direito qual termo usar!
DRA. LETICIA LANZ RESPONDE:
Caro Jornalista amigo,
Você sabe que suas perguntas não são nada simples de responder. Sempre haverá alguém insatisfeito com as respostas que eu trouxer, nessa “sopa de letrinhas” em que se transformou o universo humano da orientação sexual e da identidade de gênero.
Para enfrentar o desafio que você propôe, vou antes lhe pedir licença para repassarmos juntos alguns conceitos que considero fundamentais na elaboração das nossas respostas. Embora nitidamente distintos um do outro, esses conceitos não só costumam ser confundidos na prática como são muitas vezes reduzidos e tratados como se fossem uma só e única coisa. São eles: - sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual.
Comecemos pelo mais concreto de todos, que é o conceito de “sexo”, diretamente relacionado às características genitais primárias e secundárias de cada indivíduo. É simples: em função de ter um pênis ou uma vagina, os indivíduos da nossa espécie são classificados em “machos” ou “fêmeas” ao nascer. Quando alguém nasce com as duas coisas – pênis e vagina – ele é chamado de intersexuado (antigo hermafrodita), sendo que médicos, parteiras, pais e sociedade farão todos os esforços do mundo para “eliminar” essa “ambigüidade” que, apesar de produzida pela própria natureza, não pode ser suportada pelos rígidos parâmetros de gênero que discutiremos a seguir.
Como o sexo é uma condição herdada geneticamente, ela é absolutamente natural em toda pessoa humana, ao contrário do conceito de gênero, que não passa de uma “criação” da mente humana. Portanto, “gênero” é um conceito muito mais complexo do que sexo.
Chamamos de “gênero” o sistema binário de classificação que, partindo exclusivamente do sexo biológico que alguém apresenta ao nascer – macho ou fêmea - divide os seres humanos em dois grandes grupos - homens e mulheres, ou masculino e feminino. O gênero pode ser visto como uma espécie de “sexo social”, ou seja, uma apropriação arbitrária do sexo biológico dos indivíduos para o atendimento de interesses da sociedade.
A inclusão do indivíduo em um dos gêneros - feita ao nascer e exclusivamente em função do órgão sexual que traz entre as pernas - implica na adoção de comportamentos e papéis sociais fixos, ou seja, modelos de desempenho socialmente esperados, que ele deverá assumir e atender compulsoriamente ao longo de toda a sua vida.
Ao contrário do sexo, gênero NÃO É um dado da natureza, mas um MODELO DE CONDUTA SOCIAL que nos é imposto ao nascer, em função da genitália exposta que trazemos entre as pernas na hora do parto, já que essa é a única característica anatômica capaz de distinguir bebês machos de bebês fêmeas naquele momento.
Felizmente, por tratar-se de uma CONSTRUÇÃO SOCIAL, o “gênero” está longe de ser uma variável IMUTÁVEL, como ainda é considerado pelo pensamento conservador, podendo ser, portanto, modificado a qualquer tempo, bastando para isso que haja vontade política da sociedade, ou seja, das pessoas.
“Identidade de gênero” é, ao mesmo tempo o mais subjetivo e o mais forte, do ponto de vista individual, dos quatro conceitos que estamos repassando. Sua força na vida de uma pessoa é tão grande que pode-se dizer sem sombra de dúvida ser ele o verdadeiro motor do desejo de cada pessoa.
Podemos definir “identidade de gênero” como sendo a maneira pessoal e peculiar de cada ser humano se ver e se reconhecer como “pessoa no mundo”. Evidentemente o grande parâmetro inicial que cada um de nós tem para “aferir” a própria identidade de gênero é o gênero com que fomos agraciados ao nascer: - “homem” ou “mulher”. Contudo, para muitas pessoas, essa identificação nem é imediata, nem é natural e muito menos tranqüila, como a sociedade gostaria que fosse. Mesmo tendo nascido macho, um indivíduo pode, por uma vastíssima confluência de fatores, “sentir-se” fêmea, ou o contrário, tendo nascido fêmea, reconhecer-se como macho. Como também pode sentir-se perfeitamente confortável com sua genitália de macho mas identificar-se com papéis de gênero e vestuário tipicamente femininos. A identidade de gênero é assim uma espécie de “auto-etiqueta” que cada indivíduo cola em sua própria testa, ao lado (ou em cima!) da etiqueta de “gênero” que lhe foi colada pela sociedade quando ele nasceu.
Uma pessoa é chamada de “cis-gênera” (cis=mesmo) quando as etiquetas – do indíviduo e da sociedade – dizem a mesma coisa, ou seja, há não nenhum conflito entre a “identidade de gênero” percebida pela pessoa e o gênero que lhe foi consignado ao nascer. Ao contrário, quando a etiqueta “auto-colada” pelo indivíduo apresenta alguma (ou muita) divergência com o gênero que lhe foi consignado ao nascer, dizemos então que se trata de uma pessoa “trans-gênera”.
Se o sexo biológico está entre as pernas, gênero (e identidade de gênero, mais ainda!) está “entre as orelhas” ou seja, na cabeça de cada pessoa.
Por último, o conceito de “orientação sexual” que diz respeito, basicamente, ao sexo biológico da(s) pessoa(s) pela(s) qual(is) um indivíduo se sente atraído sexualmente.
Para a sociedade em que vivemos, existem oficialmente apenas dois tipos de orientação sexual: - o individuo é “heterossexual” quando se sente atraído por pessoas do sexo oposto ou é homossexual quando, é atraído por pessoas do seu próprio sexo. Mas, para o pensamento conservador (que, afinal de contas, é quem ainda “dá as cartas”...), só a heterossexualidade é validada como sendo a orientação sexual saudável, “normal” e “de acordo” com a natureza. Evidentemente, essa suposta vinculação da “heterossexualidade” com “natureza” e “normalidade” baseia-se invariavelmente em critérios de “moralidade”, baseados em crenças, tradições, interditos e proibições de ordem cultural ou religiosa, sem nenhuma base científica.
Alfred Kinsey, no final dos anos quarenta e durante a década de cinqüenta demonstrou, através de extensas pesquisas de campo, que a orientação sexual humana é altamente diversificada, podendo, inclusive, variar enormemente ao longo da vida de uma mesma pessoa. Assim como Freud, antes dele, já havia postulado que toda criança nasce basicamente bissexual (na verdade, mais do que isso, ele disse que a criança possui uma sexualidade polimorfa), “decidindo” paulatinamente a sua “orientação sexual predominante” em função de uma série de fatores biológicos conjugados a fatores ambientais (como educação e relação com os pais, por exemplo).
Munidos desses quatro conceitos, estaremos bem mais amparados e confortáveis para construir respostas para suas perguntas que, adianto, não são nada fáceis de responder e as respostas estão longe de serem verdades definitivas. Mas o que vale é o desafio.
1 - O que é exatamente travesti?
A travesti é a pessoa transgênera por excelência: - sua “identidade de gênero” está em conflito com o gênero que lhe foi consignado ao nascer. A travesti é tradicionalmente um indivíduo do sexo macho, sexo com o qual se sente confortável e não pretende mudar, na maior parte das vezes (o termo travesti raramente é utilizado para referir-se a fêmeas com discordância de identidade de gênero).
Em graus diversos, e variando muito de pessoa para pessoa, a travesti pode buscar desenvolver características genitais secundárias, como seios, nádegas proeminentes, quadris largos, ausência de pelos, etc, assim como, em uns poucos casos, buscar cirurgia de redesignação genital.
Do ponto de vista de orientação sexual, a travesti em geral é bissexual. Mas, se considerarmos o grupo como um todo (travestis + crossdressers) os casos de hetero e de homossexualidade (menos) se tornam muito representativos.
A travesti tanto pode viver como mulher 24/7/30/365 como apenas expressar-se dessa maneira parte do seu tempo, situação em que vive, então, duas vidas paralelas: - uma como homem e outra como mulher.
Muitas das pessoas em regime de “atividade esporádica” não se reconhecem como nem gostam de ser chamadas de travestis, preferindo o termo “crossdresser”, sobre o qual não paira o estigma que costuma rondar a simples menção do nome “travesti”.
2 - O que é exatamente transexual?
A transexual é uma pessoa do sexo macho ou do sexo fêmea em conflito com o seu sexo biológico e, por consequência, em conflito com o gênero que lhe foi consignado ao nascer, de homem ou de mulher.
Contudo, diferentemente da travesti, para quem a identidade e a expressão de “gênero” constituem o núcleo principal do conflito, na transexual o conflito se situa no próprio sexo biológico da pessoa, com foco principal na sua genitália, da qual a maior parte das transexuais deseja intensamente se livrar (embora muitas transexuais ainda se considerem transexuais mesmo não chegando ao ponto de realizar a cirurgia de redesignação sexual).
Ou seja, a demanda da transexual vai muito além de questões meramente relacionadas a gênero, como é o caso das travestis e crossdressers.
Por isso mesmo, boa parte da comunidade transexual rejeita o rótulo de transgênera, por julgar que o seu conflito é muito diferente do das outras classes incluídas nesse grupo, onde o conflito principal está tipicamente relacionado a identidade e expressão de gênero.
Realmente, no caso das transexuais, o conflito de identidade de gênero pode ser visto apenas como adjacente a um conflito muito mais original e profundo que é o próprio sentimento de se estar presa num corpo diferente daquele que a pessoa acredita que deveria ter. A transexual MtF (male to female ou macho para fêmea) se considera uma “mulher presa em corpo de homem” assim como a FtM (female to male ou fêmea para macho) que se considera um homem preso em um corpo de mulher. Muitas transexuais MtF afirmam, categoricamente, que não travestem, como fazem as travestis e crossdressers, mas vestem roupas de mulher porque é isso que faz sentido para elas, posto que são mulheres. Num outro extremo, contudo, há registros de transexuais MtF que chegam a fazer a cirurgia para readequação sexual e continuam levando a vida confortavelmente dentro do gênero que lhes foi consignado ao nascer.
Quanto à orientação sexual de transexuais, a despeito da grande incidência de homossexualidade (a rigor, heterossexualidade, considerando a natureza da queixa da transexual que é a de estar presa em um corpo diferente do sexo a que ela/ele sente pertencer) há também uma incidência considerável de heterossexualidade (homossexualidade, pela mesma razão anterior) e de assexualidade, ou seja, completo desinteresse por quaisquer tipo de relações sexuais.
Também deve ser relatado a ocorrência de um padrão de auto-erotismo conhecido como auto-ginecofilia, por sinal um tema altamente polêmico dentro da comunidade transexual na atualidade.
3 - O que é exatamente transgênero?
Como já comecei a descrever anteriormente, o transgênero é uma pessoa cuja identidade ou expressão de gênero é diferente das expectativas da sociedade em relação ao que ela chama convencionalmente de masculinidade e de feminilidade. Por exemplo, uma pessoa transgênera pode sentir um desejo incontornável de se vestir e ou de se comportar de uma forma que não é socialmente esperada (ou muito menos “aprovada”) para o gênero em que ela foi classificada ao nascer.
Desde o seu surgimento, na década de noventa, o termo transgênero tem sido basicamente empregado como uma espécie de “guarda-chuva”, abrigando pessoas, estilos e tendências que por algum motivo, dos mais simples e passageiros ou mais complexos e duradouros, simplesmente não se encaixam nas descrições das categorias tradicionais de gênero. Dentre as classes abrigadas pelo “guarda chuva da transgeneridade” se destacam as travestis, crossdressers, transexuais, indivíduos intersexuados (antigamente chamados de hermafroditas), drag-queens e transformistas, além de muitos outros segmentos, com suas próprias dificuldades de enquadramento nos rótulos oficiais de gênero.
Podemos dizer que existem vários “graus” de transgeneridade, onde o mais superficial seria, por exemplo, o uso totalmente ocasional de uma roupa socialmente consignada para o gênero oposto ao da pessoa e o mais profundo envolveria a transformação radical do próprio corpo em nome de se tornar uma pessoa de outro sexo. Por outro lado, a transgeneridade pode ocorrer apenas umas poucas vezes ao longo de uma vida inteira, como pode vir em “ondas” de freqüência variável (urges), como pode ser ainda uma necessidade permanente, 24 horas por dia, 365 dias por ano.
A pessoa transgênera pode ser tanto do sexo macho quanto do sexo fêmea. Quanto à orientação sexual, estima-se que o comportamento sexual dentro da classe transgênera como um todo repita basicamente as mesmas proporções encontradas na classe cisgênera (não-transgênera).
Finalmente, é importante lembrar que, por se tratar de um conceito muito novo e de uso muito recente ainda pairam muitas dúvidas e controvérsias sobre a conveniência da sua utilização. Como já dissemos antes, boa parte das transexuais, por exemplo, não concordam em ser vistas como parte de um grupo que reúne, ao mesmo tempo, travestis, crossdressers, drag-queens, intersexuados e transformistas.
4 - O que é exatamente pessoa trans?
Ainda bem que essa é a sua última pergunta! Porque você há de concordar comigo que a nossa jornada até aqui não foi nada fácil, hein?
Como eu espero que esteja claro para nós todos que dizer uma pessoa “trans” é o mesmo que dizer uma pessoa “transgênera”, no sentido mais amplo que esse termo vem sendo utilizado, peço licença para utilizar a sua última pergunta como motivo para fazer uma reflexão.
Para mim, pessoa “trans” é aquela está em permanente “trans-formação”, disposta a “trans-por” todos os obstáculos e resistências, internos e externos, no caminho da mudança. É aquela pessoa que “trans-gride” regras e padrões de conduta que se tornaram obsoletos e opressivos “trans-mitindo” à sociedade, de forma absolutamente “trans-parente” novas ou ainda inexploradas possibilidades de realização do ser humano. Pessoa “trans” é aquela que “trans-cende” a si mesma, tentando expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da pessoa que o mundo acha que ela deveria ser.
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