terça-feira, 15 de setembro de 2009

Breve comentário sobre os fatores incidentes na construção de mundo das travestis.


Deu-se, não faz muito, uma notícia policial no Rio de Janeiro, onde uma famosa travesti – cafetina, Yarley, foi detida e indiciada por vários crimes ligados à prostituição, dentre eles coerção e aliciamento de menores. Duas outras travestis (Graciele e Rafaela), também foram presas, uma delas em São Paulo (Rafaela).Tal fato, também foi abordado nos blogs dedicados, incluindo este. Chamou atenção, pelo menos para mim, a forma espontânea de alguns comentários, mas todos, quase sem exceção condenando com veemência, sem ponderação alguma do ocorrido. Não vi, por certo, nenhum comentário que tentasse entender o que se passava, todos condenavam de antemão. Não surpreende, pois a maioria dos visitantes nos blogs são admiradores, ou clientes de travestis – prostitutas. Não vivem (os clientes) a realidade pujante de uma travesti nas ruas, mesmo porque, teriam que se transformar para tanto.Uma travesti inicia-se cada vez mais cedo. O uso dos hormônios faz-se sentir, mesmo que de leve, o que incita pelo preconceito existente, agressões psicológicas e físicas nos ambientes escolares, bem como nos familiares. Rapidamente, para manter a transformação, cai a jovem travesti para as ruas, com o intuito de se manter e progredir na transformação em vista das formas femininas. Formação escolar, acadêmica e ambições profissionais, fora do mundo da prostituição, viram fumaças. Dá-se então que para quase todas, de forma esmagadora, prostituir-se é ser travesti. Ou seja, forma-se um mundo aparte, fechado e circular.É óbvio que neste contexto, as regras sociais vigentes no mundo dito “normal”, não se aplicam, pois não se materializam cotidianamente. As normas de vida passam a ser ditadas pelos costumes do convívio neste meio apartado, onde funciona a prostituição de travestis. As relações interpessoais, são intensas, pois necessárias, já que o isolamento é padrão na vida da travesti, caracterizada pela poucas amizades, em virtude da realidade extremamente competitiva das ruas, o que impede que estas se dêem com facilidade. A construção deste mundo, não raro, se faz com valores que se opõem aqueles das pessoas do mundo externo, da maioria, portanto.Por isto, as condenações feitas nos espaços virtuais, de pouco ou nada significam, de fato, para as travestis. Apenas funcionam, se muito, como fonte de ressentimentos, tão fácil de perceber, na forma latente, nos fóruns e blogs dedicados. O mesmo se dá com opinião manifesta da sociedade e com as ações coercitivas do estado. Não atingem as travestis, não as sensibilizam. Antes afastam e fazem nascer discursos defensivos, evasivos e reativos.Isto tudo não significa, entretanto, que as ações coercitivas das delegacias devam ser deixadas de lado. Ao contrário, dever ser ainda mais incisivas. Mas, acompanhadas de estratégias de inclusão das travestis, para um mundo que existe e engloba o micro mundo delas. E da qual elas precisam fazer parte, como cidadãs plenas, ao invés daquilo que é hoje: apenas um apêndice.Imagem: Travesti Rafaela - acusada de fazer parte de uma quadrilha de exploração sexual de jovens travestis.

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